terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Na boca do lixo

Na boca do lixo
encontrei um alho
que tinha nutrientes
mas que tinha gosto ruim;
Serviria de alimento
após dias de jejum?

Caiu agressivo na goela
o primeiro dente ardido
do alho já chocho:
o resto devorei com pressa
pra dar de desentendido...
(...Na metade da cabeça
descobri a enchaqueca
que diria já respeito
ao segundo dente ido...)

E depois de comer tudo
eu já cego, surdo e mudo
voltei pra boca do lixo
Cego, surdo e mudado
maldito e envenenado
cascas de banana e ratos,
e coisas de lixo em geral:
Antídoto bendito.
Acordei dentro da lata
Farto de porcaria,
mas desinfetado de antemão.

**

9 comentários:

  1. Uma primeira leitura do texto já pode levantar suspeição em torno de alguns termos empregados, tais como “boca”, “dente” e “cabeça”;

    Uma segunda leitura do texto empaca já no segundo verso:

    Na boca do lixo
    encontrei um alho

    Ora bolas: encontraste um dente de alho ou uma cabeça de alho?
    Ora bolas, um “dente de alho” numa “boca de lixo” seria um dente completamente ilegítimo, a não ser pelo mecanismo de pertencimento em cadeia em que um “dente de alho” constaria em uma “cabeça de alho” que constasse numa boca de lixo. Tal mecanismo situaria o homem que revira o lixo como topo de uma cadeia alimentar.
    Poroutrolado, se na boca do lixo foi encontrada uma cabeça de alho, a idéia de cadeia alimentar existe ainda, mas não tão acentuadamente, pois não há a longa hierarquia de pertencimento indireto. Neste caso o homem e o lixo estariam vinculados por uma relação de competição, já que o homem tira a cabeça de alho da boca do lixo e a toma para si.
    .

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  2. A estrofe que havia começado com dois versos pentassílabos evolui passando por um hexassílabo para três heptassílabos (556777) o que sugere uma forma trapézica, pela combinação de transição suave, unitariamente progressiva (5,6,7), com a sugestividade de uma base menor que a outra (5,5),(7,7,7):

    Na Boca do lixo
    encontrei um alho
    que tinha nutrientes
    mas que tinha gosto ruim;
    Serviria de alimento
    após dias de jejum?

    O terceiro e o quarto verso, além de se destacarem dos dois primeiros por romperem com a aparente proposição métrica inicial do poema, também se destacam dos dois últimos por estarem comprometidos entre si por amarras sonoras (“tes-mas-que”; “/quetinha/”-“/quetinha/”) -além da pontuação em pontivírgula).
    Tal destacamento particiona o ritmo de leitura, e isola sonoramente os dois últimos versos, que mesmo tendo a mesma métrica do antepenúltimo verso, parecem soar diferentemente deste.
    O isolamento sonoro destes quinto e sexto verso distancia completamente a já não tão marcada rima paroxítona entre as palavras “nutrientes” e “alimento”.
    A invisibilidade desta rima entre estes versos, bem como as várias quebras rítmicas ao longo de toda a estrofe, sobrecarregam a sensação de surpresa gerada pela rima “ruim”-“jejum” (tal rima não existe se o quarto verso for lido como um octassílabo!), que aparece atordoantemente inadvertida segundos após a conclusão desta primeira etapa da leitura.
    Tal sensação parece ao leitor muito convidativa de uma releitura da estrofe, aa busca de uma melhor compreensão da rima; e somente desta releitura, com a atenção a recair especificamente sobre a sonoridade, depreender-se-há a minguada rima paroxítona entre terceiro e quinto versos.
    Já que todo corpo simbólico a que se possa identificar na forma justifica, por si, a busca de um paralelo análogo no âmbito do conteúdo (e vice-versa), a constatação desse entrelaçamento entre os quatro últimos versos pelas rimas alternadas sugere uma aproximação paralela de sentidos: (nutrientes/alimento)~(ruim/jejum).
    Com efeito, a aproximação de sentido entre “nutrientes” e “alimento” é imediata e exata, podendo servir de parâmetro para a atribuição de uma relação entre “ruim” e “jejum”:

    “Nutientes” está para “alimento” segundo uma relação muito especificaficamente fisiológica. “Ruim” estaria, então, para “jejum”, a recortar seu tema de privação, carência, deficiência, excluindo quaisquer possíveis interpretações do termo “jejum” em contextos outros, tais como o de sacrifício religioso, da preparação meditativa, ou do procedimento clínico pré-operatório, entre outros.
    .

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  3. A segunda estrofe se inicia pelo verso:

    Caiu agressivo na goela

    , que chama a atenção por introduzir mais um órgão típico do aparelho digestivo, a “goela”, além de “dente” e “boca”.

    O elemento “goela” entra em cena num contexto um tanto quanto curioso: engolindo um “dente”:

    Caiu agressivo na goela
    o primeiro dente ardido

    Uma “goela” engolindo um “dente” não deixa de remeter aa imagem de um órgão que está em desarmonia com seus pares: um órgão cujo papel biológico está a sobrepujar o papel biológico dos demais órgãos afins, o que sugere uma impressão de antinaturalidade autofágica, de auto-destruição.
    Nesse sentido, a decisão, pelo narrador, de engolir aquele alimento duvidoso se revela, desde o início, uma medida irresponsável e desesperada.
    Com efeito os quarto e quinto versos desta estrofe reiteram o caráter contraditório do conflito interior do narrador-personagem, que é obrigado a ludibriar-se a si mesmo na tentativa de sair daquele impasse insustentável:

    o resto devorei com pressa
    pra dar de desentendido...
    .

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  4. Nesta primeira metade da segunda estrofe também é muito patente o caráter divisor de águas, no ámbito da forma, do terceiro verso, tanto pela métrica (8,7,5,8,7) quanto pela rima (A,B,C,A,B).

    Caiu agressivo na goela
    o primeiro dente ardido
    do alho já chocho:
    o resto devorei com pressa
    pra dar de desentendido...

    Tal corpo simbólico formal também encontra seu paralelo no campo conteudístico, na medida em que a constatação pelo narrador de uma característica especial daquele alho em particular (aquele alho já estava chocho) pesaria como argumento em favor de submeter aquele alho específico a uma provação autêntica, uma provação que ignorasse todo o conhecimento prévio acumulado a respeito dos demais alhos enquanto rigorosamente pertencentes a um conceito mais geral.
    O acinturamento representado conteúdo-estruturalmente por este terceiro verso tem seu sentido decisório reforçado pela transformação que opera sobre o teor das palavras rimantes constantes dessa primeira metade da segunda estrofe, a saber, “agressivo”-“ardido”-“desentendido”; e “goela”-“pressa”:

    Caiu agressivo na goela
    o primeiro dente ardido
    do alho já chocho:
    o resto devorei com pressa
    pra dar de desentendido...

    Pode-se bem notar que “agressivo”, no primeiro verso, compactua sinergicamente com “ardido”, no segundo verso; mas já no quinto verso, “desentendido” é uma palavra cujo papel no texto recai especialmente sobre essas precedentes palavras com que pode rimar, já que o objeto do “desentendimento” são justamente as advertências impressivas que a ingestão intempestiva comunicou: o ardor e o agreste do alho.
    Já “goela” e “pressa” não estão mais explicitamente relacionadas entre si sozinhas do que o estão por intermédio da relação discutida imediatamente acima. Desta maneira, “goela” se associa ao “agressivo” e ao “ardido”, para se contrapor aa “pressa” enquanto ferramenta do “desentendimento”.
    .

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  5. Dentro do parênteses que delimita a segunda metade desta segunda estrofe, a monotonia métrica harmoniza com a idéia de fluência ininterrupta encerrada no âmbito da narrativa:

    (...Na metade da cabeça
    descobri a enchaqueca
    que diria já respeito
    ao segundo dente ido...)

    a “fluência ininterrupta” está digéticamente presente na toada da ingestão dos dentes de alho pelo narrador, e tanto a rima quanto a proximidade sonora de “dente ido”, do nono verso, com “desentendido”, do quinto, ensanduícha todos os versos de dentro do parênteses no contexto do procedimento adotado pelo narrador para minimizar os efeitos da ingestão do alho, a saber, comer tudo com pressa pra somente lidar com os efeitos colaterais decorrentes quando fosse tarde demais para desistir de encarar o elevado preço cobrado pela nutrição naquela situação, uma vez que só depois de comer metade da cabeça de alho ele foi começar a sentir a enxaqueca que já teria sentido se tivesse comido apenas dois dentes.

    que diria já respeito
    ao segundo dente ido...)
    .

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  6. (...Na metade da cabeça
    descobri a enxaqueca
    que diria já respeito
    ao segundo dente ido...)

    Escancaradamente óbvios são também os joguetes eufônicos entre o sexto e o sétimo verso (me-ta-de-da)~(en-xa-que-ca); entre o sétimo e o oitavo (des-co-bri-a)~(que-di-ri-a); entre o oitavo e o nono(res-pe-i-to)~(den-te-i-do); e a inimperceptivelmente quase-infame-de-tão-explícita aproximação de sentido entre “cabeça” e “enxaqueca”.
    .

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  7. A terceira e última estrofe se destaca por suas rimas de fim de verso estarem mais juntas umas das outras do que nas demais estrofes:

    E depois de comer tudo
    eu já cego, surdo e mudo
    voltei pra boca do lixo
    Cego, surdo e mudado
    maldito e envenenado
    cascas de banana e ratos,
    e coisas de lixo em geral:
    Antídoto bendito.
    Acordei dentro da lata
    Farto de porcaria,
    mas desinfetado de antemão.

    , a não ser por “lixo”-“bendito”, de cujos versos contintentes a distância é compensada pela aproximação semântica estabelecida pela associação que a narrativa faz entre seus significados (lixo~antídoto, lixo~bendito).
    .

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  8. A estrofe começa por três heptassílabos:

    E depois de comer tudo
    eu já cego, surdo e mudo
    voltei pra boca do lixo

    , porém o terceiro verso se separa dos dois primeiros já por estar excluído da afinidade sonora que os une pela rima, mas principalmente pela diferença de compasso tônico (terceira e sétima sílabas poéticas para os dois primeiros versos; segunda quarta e sétima sílabas poéticas para o terceiro verso), e acima de tudo pela reatribuição de sentido ao símbolo do lixo, antes fonte do alho semente da desgraça, agora fonte mais próxima e acessível de possível cura do novo mal, reatribuição essa que se dá narrativamente exatamente neste terceiro verso da terceira estrofe.
    Esse compasso tônico somente irá reocorrer no próximo heptassílabo a, como o terceiro, não seguir a rima de seus versos imediatamente antecessores, a saber, o sétimo (observe-se que a tentativa de pronunciar a quarta sílaba do quinto verso como tônica na verdade transformaria esta mesma sílaba na quinta sílaba tônica de um octossílabo).
    .

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  9. Em suma: na narrativa, o narrador-personagem recorre aos demais itens que encontra no lixo, menos comestíveis do que o alho, para tentar, a partir da ingestão destes, aniquilar a agonia causada pela ingestão em jejum prolongado do terrível alho.

    E depois de comer tudo
    eu já cego, surdo e mudo
    voltei pra boca do lixo
    Cego, surdo e mudado
    maldito e envenenado
    cascas de banana e ratos,
    e coisas de lixo em geral:
    Antídoto bendito.

    E o verso termina após seu acesso desesperado de loucura. O narrador-personagem acorda no nono verso; e nos décimo e décimoprimeiro versos, quando seus problemas já estão resolvidos, as métricas são as mais soltas de todas, criando a combinação de tônicas mais prosaica do texto, sugerindo que o estabelecimento da linguagem em prosa demarcaria o fim do conflito, a calmaria.

    Acordei dentro da lata
    Farto de porcaria,
    mas desinfetado de antemão.

    E a tal calmaria surge, narativamente, a bem-dizer, da mútua neutralização de efeitos entre duas atitudes antagônicas: a razão mais fria e ponderista (comer ou não comer este alimento tão hostil que, apesar de repugnante, é o único recurso que se oferece?), e o instinto mais passional e desesperado (apaziguar o ardor ensandecedor no trato digestivo por meio de acariciar suas vias com que quer que seja que apareça pela frente). Trata-se, no fim das contas, da saga de um indivíduo que encontra a paz por meio do bom equilíbrio entre razão e emoção, equilíbrio este que atingiu por viés bastante inusitado, já que, se antes estava faminto, agora está farto, mas farto de coisas que não comeria em sã consciência (“coisas de lixo em geral”), sendo que precisou se submeter (inadvertidamente mas por meio, sim, da razão, que o levou a escolher tentar comer o alho) a uma situação hiperbolicamente mais miserável (“mudado”, “maldito” e “envenenado”) do que sua situação anterior(“dias em jejum”) para superar todos os seus males de uma só vez terminando “farto” e “desinfetado”: farto de coisas de lixo em geral, e desinfetado da perniciosidade do lixo pela vilania agreste instaurada pelo alho, que tal lixo encontrou dentro de seu organismo).

    **
    Tchirito-Tchirito.

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