sábado, 4 de abril de 2009

“Jesus de pé (Antiantropomorfismo)”

“Jesus de pé (Antiantropomorfismo)”

O meu Deus não tem direita
Pra Jesus sentar-se à ela
Há de vir a julgar-me
De pé.

2 comentários:

  1. Neste pequeno e misterioso texto, o autor dialoga com uma oração da prática católica conhecida como “Creio”, aquela que começa:

    “Creio em Deus-pai, Todo-Poderoso,/
    Criador do Céu e da Terra,/
    e em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor(...)”.

    Poupê-mo-nos da integral transcrição do texto, e contentê-mo-nos com a reprodução do trecho de maior interesse, o trecho que é parafraseado e ao qual o nosso texto se refere, em particular:

    “[Jesus Cristo](...)subiu aos Céus,/
    está sentado à direita de Deus-Pai, Todo-Poderoso,/
    donde há de vir a julgar os vivos e os mortos(...)”

    Quando, no primeiro verso, o eu-lírico afirma que o “seu” “Deus” não tem direita, ele choca tanto pelo fato de se apropriar do conceito “Deus”, com o uso do pronome possessivo, quanto por descrever este “Deus” como detentor de uma característica difícil de conceber, que é a ausência de um espaço a ser chamado “direita” ao lado de si. De fato, a apropriação pelo eu-lírico do conceito “Deus” se faz necessária para que se legitime esta recriação de “Deus” como uma entidade que pode não ter uma “direita”, aparecendo como inusitada ao olhar cristão/católico, sob o qual se contextualiza o texto ao dialogar tão claramente com uma oração de seu repertório.
    Com efeito, o alter-título do texto (antropomorfismo) deixa claro que será discutida justamente a questão do caráter antropomórfico adotado para seu Deus pelas culturas monoteístas da tradição ocidental. Em sua reelaboração, o eu-lírico parece ter como prioridade justamente a rejeição da idéia de que Deus tenha a aparência de homem, e de que este tenha sido criado à imagem e semelhança daquele. Neste momento, trazemos a discussão para o nível do título propriamente dito, “Jesus de pé”. Aqui, estar em pé, além do significado que se completará com o término da leitura, temos uma clara referência ao bipedismo, característica tão marcante e simbólica da evolução do homem. O questionamento do texto não chega ao nível extremo (e desmerecedor de crédito pelo absurdo) de negar que Jesus tenha nascido homem (ou em forma de homem). O mecanismo aqui é se valer da aproximação que sempre existe entre Jesus e o próprio Deus, para estender o bipedismo deste (em quem é inegével) àquele. É curioso perceber que por apontar esta identidade entre o Pai e o Filho, o autor vagamente sugere uma relação de causa e efeito que remete aos primórdios da formulação da doutrina cristã: por ser homem o Filho, pareceria mais aceitável e difusível uma imagem de um Pai homem também? Ou a idéia de um Deus antropomórfico antecederia à vinda do Messias, e tenha surgido porque assim pareceu mais lógico ao homem antigo no momento histórico em que o monoteísmo foi criado? Neste caso, a presença de um filho homem de Deus entre nós poderia ter sido desdobramento inventivo desta idéia, concebido pelo engenho humano e perpetuado pelo temor e respeito ao sagrado? Acreditaria realmente o eu-lírico que o próprio Jesus seja um mito? Uma “conspiração”?
    Mesmo que o monologuista perceba Jesus de uma forma tão radical, não se pode saber, pelo texto, com precisão: notemos que ao ler apenas os dois primeiros versos, temos a impressão de que o Messias esta sendo excluído, afastado, da cena criada, como se pode ver na intervenção didática criada abaixo:

    “(...) não tem (...) pra Jesus sentar(/...)”

    Contudo, ao prosseguirmos a leitura apenas até que se perceba a intenção do segundo verso, notamos que a referida exclusão não existe, já que Jesus, ainda nesta fantasia, será convocado a participar do julgamento da personagem (“Há de vir a julgar-me”) -vale adiantar aqui que observaremos posteriormente em nossa análise que esse corte abrupto tem um efeito importante na interpretação dos sentimentos do enunciador*.
    Ainda neste terceiro verso, podemos apontar um dado interessante com respeito à escansão do poema: “Há de vir a julgar-me” possui seis sílabas poéticas, enquanto os dois versos anteriores eram heptassílabos. O interesse reside no fato de que o hexassílabo poderia muito facilmente haver sido composto com sete sílabas poéticas, se como “Há de vir a me julgar”. Além de preservar o equilíbrio métrico do texto, a pronúncia do heptassílabo, neste caso, é mais fluente e grácil do que a do hexassílabo. Porém é justamente aí na pronúncia que está a vantagem da construção escolhida: brotando aos solavancos como vai, acaba por marcar o compasso da reza, remetendo não só em paráfrase como em sonoridade à oração com a qual dialoga o poema. Ainda a ênclise favorece tal aproximação. Comparemos as três frases (a da oração com a adotada no texto com a alternativa à esta):

    “(...) há de vir a julgar os vivos e os mortos”
    “Há de vir a julgar-me”
    “Há de vir a me julgar”

    Justapondo-as assim, fica nítida a antecipação da quebra de identidade pela próclise: o pronome é a partícula que introduzirá a dessemelhança nas duas paráfrases, e no verso hexassílabo esta dessemelhança tarda mais a chegar: versão indiscutivelmente superior, protanto.
    Somente com a leitura do quarto verso, que foi separado do terceiro por um “enjambement” para fins de surpresismo e de quebrar o cabalismo métrico , seremos capazes de captar a idéia geral do poema: Jesus deveria, segundo a oração, estar sentado à direita de Deus para julgar os vivos e os mortos, mas com a adoção de um Deus amorfo e deslocalizado torna-se irrealizável a divisão do espaço em torno Dele em direita e esquerda, não havendo, portanto, onde Jesus se sente, pelo rigor da análise da Escritura.
    Depreende-se daí que o autor não crê em análises imaleavelmente denotativa e ferrenhamente fundamentalista no momento de interpretar os textos sagrados, uma vez que, para todos os efeitos, Jesus estando sentado ou de pé poderá ainda muito bem julgar tanto os vivos quanto os mortos, que é, no fim das contas, o que mais se espera dele para a referida ocasião.
    Ou então, pode-se analisar a questão do ponto de vista antiinstitucionalizante: o eu-lírico crê que cada homem tem plena condição de encontrar Deus por si mesmo. Acredita que tentar entender Deus com as próprias experiências valha mais do que consultar a terceiros; que comungar com Deus em seu próprio coração valha mais do que ouvir um sermão de um padre na missa. Se esta for realmente sua crença, então talvez ele haja criado um “Jesus de pé” que se levantou para recebê-lo, para demonstrar respeito diante de um homem que levava a questão espiritual tão a sério que ousou andar com as próprias pernas no trilha em direção ao “Deus verdadeiro” e, encontrando ou não este Deus “verdadeiro”, mereceu ter-se com aquele no qual acreditou, e recebeu o reconhecimento de Jesus pelo seu esforço como prêmio máximo, no dia do seu Juízo Final.
    Notemos, por outro lado, como a própria concepção de um “Deus sem direita” não deixa a Jesus outra opção senão recebê-lo de pé.
    *Aqui é o momento de retomar o que adiantáramos um pouco acima. Quanto ao corte suposicional que se dá do segundo para o terceiro parágrafo. Como deve se lembrar o leitor, o clima do texto sugere de início uma ruptura mais violenta com a visão religiosa vigente mais difundida, para atenuar essa ruptura no terceiro parágrafo, com a menção de um Jesus ainda fazendo o seu papel. Como havíamos referido anteriormente, esse degrau expectatício nos dá margem a ainda uma especulação quanto a um possível sentimento do enunciador: ele, inebriado pela sensação de estar realizando uma exposição de natureza tão controversa, com é tão natural do homem ficar, principiou mesmo por se revelar radical em seus questionamentos, recobrando, porém, de sua sobriedade em meio à exposição, encontrou algum modo de tornar o discurso menos indigesto, que foi incluir uma visão de Jesus não muito distante da vigente. Existiria nele um certo medo de assumir essa intenção radical, que tanto poderia ser receio da não aceitação por seus semelhantes, quanto receio de que suas especulações teológicas se revelassem ousadas demais, podendo no momento do Juízo Final, lhe render uma condenação ao inferno por heresia.
    Contudo, estas são meras especulações, uma vez que o último verso, tendo apenas duas sílabas poéticas, incorpora-se de tal carga de prepotência que parece quase inadmissível que o eu-lírico não esteja esperando com segurança as mais honrosas glórias para si no momento do Grande Encontro com a Verdade. Esse dissílabo nos remete a um monologuista impregnado da auto-estima e segurança típicas dos ateus, sempre seguros da própria capacidade e satisfeitos com o próprio racionalismo, ainda que se trate o falante de alguém que crê em um Deus.
    Este dissílabo ainda tem um importante e curioso papel quando num balanço geral da escansão do poema todo. Passamos por tetrassílabo (“Jesus de pé”), pentassílabo (“Antropomorfismo”), dois heptassílabos e um hexassílabo já mencionados. Reparemos que, mesmo com uma grande oscilação métrica, o trissílabo não é praticado. O trissílabo, cujo valor, 3, remeteria, num contexto religioso, à Santíssima Trindade, foi evitado, uma vez que dentre “Pai”, “Filho”, e “Espírito Santo”, este último somente tem razão de existir na necessidade de um ente mais inconcreto e etéreo para a atuação divina. Como o enunciador já admite o próprio Deus como um ente amorfo, ou seja, completamente fenomênico, já sem uma interface corporível, ele elimina para si a necessidade de se filiar a essa tripartição. Segundo esta interpretação, o dissílabo tem o importante papel de deslocar a amplitude de oscilação das adoções métricas a níveis que entornem completamente o trissílabo, passando a mensagem de que ele foi rejeitado não por imposição dos harmonia e equilíbrio, mas sim por segura e fundamental significância da própria rejeição em si. Corrobora ainda para ratificar uma tal leitura o fato de, sendo o sete um outro cabalistíssimo número para o cristão, o heptassílabo não só não haver sido evitado como também tenha sido a medida de maior recorrência em todo o texto, com duas incidências. Como sabemos, o sete deve sua significação à soma do três, o número adotado para o sagrado, com o quatro, o numero adotado para o secular, representando, portanto, a comunhão, a interdependência entre o espiritual e o material, entre o corpo e a alma. Assim a reincidência do heptassílabo corrobora pela antipatia do enunciador pelo ateísmo, pelo racionalismo puro e material, e nos assegura de que a negação da forma antropomórfica de Deus não é um questionamento gratuito, mas sim uma indagação sincera com origem no conflito pessoal de um homem que lida com a questão teológica com um máximo de respeito e pudonor.
    Para encerrar o balanço métrico puro, reparemos que tanto evitando (ou “corrigindo”) o “enjambement” já mencionado, e trazendo o quarto verso para o terceiro, quanto não separando as duas partes do título, e encarando-o como um verso único, obtemos dois eneassílabos. Mais do que isso: obtemos um poema que consiste num ensanduichamento de dois heptassílabos por dois eneassílabos. Segundo a análise da numerologia bíblica recém discutida acima, é válida a leitura do nove, enquanto potência de três (o número celestial), como número da exacerbação religiosa, a tolher os movimentos do sete (a convivência harmoniosa entre corpo e espírito). Depreende-se que, segundo o autor, um homem não pode viver em paz de espírito enquanto o seu Deus lhe sufocar completamente com restrições gratuitas e burocráticas, lhe inspirar horror e medo com a ostentação de um poder infinito voltado para o castigo da desobediência.
    Hibridizando agora a análise metrológica com a análise da disposição gráfica dos elementos do texto, porém mantendo-nos no modelo do ensanduichamento, notemos que como o título sempre se destaca graficamente do texto, simbolicamente, existe um respiro que permitiria a libertação da referida opressão exercida pela exacerbação religiosa, e esta brecha pode ser apontada segundo duas análises diferentes, uma simbólica e outra diagramática:

    - Segundo a análise simbólica, o título se tornaria um símbolo para a condensação terminológica, que é um fenômeno inevitável e inerente à comunicação humana: ao se criar um “termo”, ou seja, uma palavra que pode pertencer ao código lingüístico de um idioma ou de um vocabulário específico de um assunto, condensa-se nele toda a idéia que ele encerra, idéia essa, quase sempre multifacetada e repleta de denotações, um pluralismo por sua vez, irreferível em sua plenitude pelo termo que supostamente devesse servir para sintetiza-lo de maneira absoluta.
    No caso do nosso contexto, o título do texto seria símbolo para os ritos que se esvaziam de sentido pelo uso mecânico e repetitivo, com exemplo mais óbvio nas orações (inclusive uma delas foi pedra fundamental na edificação do texto), perpetuadas pela prática ritual através de gerações e repetidas irrefletidamente com crescente descaso para com a pronúncia, como se somente o ato de rezar em si fosse completamente mais importante do que o significado da oração, até o ponto absurdo em que suas palavras começam a não mais concordar entre si, e os atropelamentos das virgulas passam criar combinações esdrúxulas entre orações ridiculamente incompatíveis.
    Por essa linha, notamos que o fato de o respiro, enquanto ponto de partida para a libertação do ensanduichamento da opressão religiosa, surgir pelas frestas que se formam com o distanciamento gráfico do título, significa, pela análise simbólica, que o distanciamento do religioso destes “vícios rituais” por assim dizer, seria a chave para a libertação da opressão, chave para o encontro com a paz de espírito.

    - Segundo a análise diagramática, a folga do ensanduichamento está, diagramaticamente, localizada “acima”. De todo o perímetro que aprisiona a paz de espírito, o trecho mais frágil é o trecho que a recobre por cima: a superficialidade ritual. Por um outro caminho, chegamos novamente a ela, e à sua rejeição como sendo o ponto de partida.
    Mas ainda mais adequada para uma análise diagramática, seria dividir as coordenadas bidimensionais de maneira hierárquica: acima, as autoridades religiosas; ao lado, os fiéis enquanto irmãos e iguais; e abaixo os que são estranhos à hierarquia religiosa, seja por exclusão (voluntária ou involuntária) ou simples não-aderência.
    Desenvolvendo esta nova linha de análise, as autoridades religiosas, que estão entre o fiel e seu Deus seriam o primeiro elemento a ser afastado na busca pelo desensanduichamento, seja por serem instrumentos de perpetuação degenerativa dos rituais (o que remete à primeira análise diagramática feita, ou à análise simbólica), seja pelo simples fato de serem um intermediário desnecessário na aproximação entre um homem e seu Deus, que devesse ser mais empírica e experimental do que didática ou doutrinária (em que temos motivo pra crer que o autor realmente acredita).

    ??Com o distanciamento recomendado pelo autor sendo apontado entre o fiel e as camadas hierárquicas acima dele, hipotetiza-se que a relação com as camadas a seu lado e abaixo de
    ??Notemos que essa qualificação hierárquica desvirtua a prisão de sua natureza numerológica (exacerbação religiosa), e a diferença métrica passa a ser meramente indicativa e diferenciadora entre as qualidades de envolvido e envolvente.

    ?? curvinha do enjambement

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  2. TU TA É QUEIMADO COM ESSES COMENTARIOS BEISTAS, LÊ A BIBLIA E PREGA O QUE REALMNTE INTEREÇA É NAO O QUE UM SIMPLIS MORTAL ESCREVEU. BICHO BESTA!! SÓ JESUS TEM MISERICORDIA DE UM COITADO QUE NEM TU.

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